quarta-feira, 1 de junho de 2011

5 –  A Aula Passeio

            Freinet percebeu e demonstrou que o ensino é muito mais eficiente quando se baseia no desejo e no prazer do educando.




            Nestes passeios os alunos recolhiam e observavam as plantas, as pedras, os animais, e quando voltavam, escreviam na lousa um resumo do que ocorrera. O texto era comentado, acrescido e transfomado pelas crianças, que ao final o copiavam em seus cadernos. Assim, Freinet conseguia uma aula viva através da qual os alunos estudavam e conheciam mais profundamente seu meio. Eram aula animadas em que toda a vivacidade das crianças contribuía para a construção coletiva do conhecimento. As saídas ao ar livre alegremente e sem problemas prévios para as crianças observarem a natureza transformam-se pouco a pouco em aulas-passeio quando já havia a preocupação de se fazer um relato de todos os acontecimentos que, ao longo do caminho, atraiamos olhares das crianças. Freinet tinha a firme convicção de que a aula passeio “não era tempo perdido pois todas as disciplinas escolares tiravam proveito disso” (1976, p. 24)


6 – O Texto Livre

            Uma primeira constatação ele fazia nesta época sobre a necessidade de expressão que a criança, como o adulto, possui. Passo a passo, partindo principalmente de uma observação atenta e sensível dos seus alunos, Freinet vai introduzindo novas técnicas e consolidando uma filosofia da educação, preocupando-se em dar à criança a dignidade e o respeito que qualquer ser humano merece e trazendo para a sala de aula o que antes ficava lá fora no pátio: a vida.É a base da livre expressão, pode ser um desenho, um poema ou pintura.
            A criança determina a forma, o tema e o tempo para sua realização. Porém se a criança desejar que seu texto seja divulgado deverá passar pela correção coletiva.
         São textos efetivamente livres, na forma e no tema. São expressão do desejo e da curiosidade da criança ao mesmo tempo em que explicitam os temas que elas elejam como importantes. O texto-livre precisa ser motivado.



7 – Imprensa Escolar
             Na sua época, Célestin Freinet usava o tipógrafo para a divulgação dos textos dos seus alunos, com os próprios alunos lidando com impressoras e tipos de impressão. Podendo ser um registro sobre aula das descobertas, uma entrevista, pesquisas entre outros. Na atualidade podem ser utilizados o computador e máquinas xerox.  A divulgação pode ser somente na escola ou também estender-se a amigos e familiares.
            O aluno compõe seus textos, permitindo assim que os enviem a outras escolas, a seus pais e aos demais membros da comunidade. A produção de um material impresso valoriza o registro do pensamento da criança.
            Além disso, o ato de imprimir um texto para ser lido por terceiros traz para este texto exigências de qualidade que, de outra forma pareceriam exigências infundadas e maçantes por parte do professor. O aluno fica responsável pela qualidade ortográfica ao mesmo tempo em que o expõe à necessidade de planejar graficamente o espaço dedicado ao texto decidindo, por exemplo, o tamanho dos tipos a serem utilizados em cada parte do texto e o local da página em que colocará cada informação.       
            Permite a interação regular entre as escolas e destas com as comunidades em que estão inseridas. É o jornal escolar que leva a produção literária e gráfica dos alunos a seus pais, a outras escolas, aos membros da comunidade, entre outros. Sua produção é feita de maneira cooperativa. O jornal é uma reunião de textos livres, realizados e impressos diariamente.


            Para o jornal, a criança “não escreve apenas o que interessa a ela; escreve aquilo que, nos seus pensamentos, nas suas observações, nos seus sentimentos e nos seus atos é susceptível de interessar os seus camaradas e de vir a interessar os seus correspondentes.” (Freinet, 1947:21).
         8 - COOPERATIVA ESCOLAR

   É a forma de organização da classe em que todos têm voz e voto. A organização do trabalho parte de um contrato estabelecido entre o professor e os alunos, onde se definem os objetivos, e os princípios e os meios pelos quais o grupo perseguirá suas metas. A partir deste contrato as atividades são deslanchadas e, em cada uma delas, o espirito de cooperação deve estar presente.
            Os membros desta cooperativa se reúnem regularmente para avaliar o produto de seu trabalho e verificar se estão caminhando para alcançar as metas previstas. Estas reuniões têm um redator e um coordenador e nelas, além de se discutir e avaliar as atividades recentes, são propostas as atividades subsequentes, resolvem-se problemas apresentados pelos membros do grupo e se discute proposta sobre sua organização administrativa e financeira.permite desenvolver entre as crianças e entre estas e os professores, relações que conduzem à organização das diversas modalidades de trabalho como: conversa livre, conselho de classe, reunião cooperativa em acordo com a idade dos alunos. A reunião cooperativa é a mola mestra de todas as decisões, sejam relativas às práticas pedagógicas do ensino-aprendizagem, sejam no âmbito do desenvolvimento de atitudes e habilidades, que no seu conjunto constitui a "formação do homem". A vida cooperativa muda às condições de trabalho de sala de aula instaurando novas estruturas de relações que priorizam as responsabilidades e as competências e dão ao trabalho o seu verdadeiro lugar pela valorização de todos os sucessos, pela multiplicação desses sucessos e pelo encaminhamento adequado dos erros que geram os fracassos. A vida cooperativa responderá a demanda real - a da segurança e a da ordem.


A pedagogia Freinet é centralizada na criança e baseada sobre alguns princípios:

- senso de responsbilidade
- senso cooperativo
- sociabilidade
- julgamento pessoal
- autonomia
- expressão
- criatividade
- comunicação
- reflexão individual e coletiva
- afetividade

Invariantes Pedagógicas Freinetianas:

  1. A criança é da mesma natureza que o adulto.
   2. Ser maior não significa necessariamente estar acima dos outros.
   3. O comportamento escolar de uma criança depende do seu estado fisiológico, orgânico e constitucional.
   4. A criança e o adulto não gostam de imposições autoritárias.
   5. A criança e o adulto não gostam de uma disciplina rígida, quando isto siginifica obedecer passivamente uma ordem externa.
   6. Ninguém gosta de fazer determinado trabalho por coerção, mesmo que, em particular, ele não o desagrade. Toda atitude imposta é paralisante.
   7. Todos gostam de escolher o seu trabalho mesmo que essa escolha não seja a mais vantajosa.
   8. Nnguém gosta de trabalhar sem objetivo, atuar como máquina, sujeitando-se a rotinas nas quais não participa.
   9. É fundamental a motivação para o trabalho.
   10. É preciso abolir a escolástica.
    10- a. Todos querem ser bem-sucedidos. O fracasso inibe, destrói o ânimo e o entusiasmo.
    10- b. Não é o jogo que é natural na criança, mas sim o trabalho.
   11. Não são a observação, a explicação e a demonstração - processos essenciais da escola - as únicas vias normais de aquisição de conhecimento, mas a experência tateante,que é uma conduta natural e universal.
   12. A memória, tão preconizada pela escola, não é válida, nem preciosa, a não ser quando está integrada no tateamento experimental,onde se encontra verdadeiramente a serviço da vida.
   13. As aquisições não são obtidas pelo estudo de regras e leis, como às vezes se crê, mas sim pela experîencia. Estudar primeiro regras e leis é colocar o carro na frente dos bois.
   14. A inteligência não é uma faculdade específica, que funciona como um circuito fechado, independente dos demais elementos vitais do indivíduo, como ensina a escolástica.
   15. A escola cultiva apenas uma forma abstrata de inteligência, que atua fora da realidade fica fixada na memória por meio de palavras e idéias.
   16. A criança não gosta de receber lições autoritárias.
   17. A criança não se cansa de um trabalho funcional, ou seja, que atende aos rumos de sua vida.
   18. A criança e o adulto não gostam de ser controlados e receber sanções. Isso carcteriza uma ofensa à dignidade humana, sobretudo se exercida publicamente.
  19. As notas e classificações constituem sempre um erro.
   20. Fale o menos possível.
   21. A criança não gosta de sujeitar-se a um trabalho em rebanho. Ela prefere o trabalho individual ou de equipe numa comunidade cooperativa.
   22. A ordem e a disciplina são necessárias na aula.
   23. Os castigos são sempre um erro. São humilhantes, não conduzem ao fim desejado e não passam de paliativo.
   24. A nova vida da escola supõe a cooperação escolar, isto é, a gestão da vida pelo trabalho escolar pelos que a praticam, incluindo o educador.
   25. A sobrecarga das classes constitui sempre um erro pedagógico.
   26. A concepção atual das grandes escolas conduz professores e alunos ao anonimato, o que é sempre um erro e cria barreiras.
   27. A democracia de amanhã prepara-se pela democracia na escola. Um regime autoritário na escola não seria capaz de formar cidadãos democratas.
   28. Uma das primeiras condições da renovação da escola é o respeito à criança e, por sua vez, a criança ter respeito aos seus professores; só assim é possível educar dentro da dignidade.
   29. A reação social e política, que manifesta uma reação pedagógica, é uma oposição com o qual temos que contar, sem que se possa evitá-la ou modificá-la.
  30. É preciso ter esperança otimista na vida. (Sampaio, 1989: 81-99)

Indicações Bibliográficas:




FREINET, Célestin. A educação pelo trabalho. Lisboa: Presença, 1974. 

________. A saúde mental da criança. Lisboa: Edições 70, 1978. 

________. As técnicas Freinet da escola moderna. Lisboa: Estampa, 1975. 

________. Conselho aos pais. Lisboa: Estampa, 1975. 

________. Ensaio de psicologia sensível. Lisboa: Presença, 1976. 

________. O jornal escolar. Lisboa: Estampa, 1976. 

________. O método natural. Lisboa: Estampa, 1977. 

________. O método natural de gramática. Lisboa: Dinalivro, 1978. 

________. Para uma escola do povo. Lisboa: Presença, 1973. 

________. Pedagogia do bom-senso. São Paulo: Martins Fontes, 1985. 

________. Texto livre. Lisboa: Dinalivro, 1973.